A maioria das marcas trata visibilidade em IA como um jogo só: otimizar a página, ter dado estruturado, escrever resposta direta no topo do texto. Só que um consultor de SEO acabou de mostrar, lendo o tráfego real do ChatGPT, que existem dois jogos separados, e o segundo só importa pra quem já venceu o primeiro. Se sua marca nunca chega no radar do ChatGPT antes da busca acontecer, nenhum ajuste de página vai resolver isso.

Quem chegou a essa conclusão foi Suganthan Mohanadasan, cofundador da Snippet Digital, agência de SEO sediada no Reino Unido especializada em jornada de busca corporativa. Ele passou dois meses capturando as requisições que o ChatGPT faz nos bastidores, não as respostas que aparecem na tela, e leu literalmente as buscas que o modelo escreve pra si mesmo antes de consultar qualquer página.

Jogo 1: estar no vocabulário do modelo

Quando alguém pergunta ao ChatGPT algo como “qual o melhor app de anotações de reunião”, sem citar nenhuma marca, o modelo reescreve isso numa busca interna própria antes de acessar a web. E essa busca já vem com nomes. Na análise de Suganthan, em 21 das 27 conversas testadas, a primeira busca gerada pelo ChatGPT continha marcas que o usuário nunca tinha mencionado.

O alcance disso vai fundo. Numa pergunta sobre aspiradores robôs, sem o usuário citar nenhuma marca, o ChatGPT pesquisou por linhas específicas de produto, incluindo modelos recentes. Isso não é lembrar que uma marca existe, é reconhecer o catálogo dela.

Só que essa lista não é fixa. Ao repetir a mesma pergunta várias vezes, categorias como aprendizado de idiomas mantiveram praticamente as mesmas marcas em todas as rodadas, enquanto contabilidade e hospedagem de site mudaram completamente de uma tentativa pra outra, às vezes trocando marcas por sites de review no lugar. Um achado à parte chamou atenção: em categorias como SUVs elétricos, o ChatGPT nem citou fabricantes na busca inicial, foi direto atrás de publicações especializadas, como se confiasse mais no crivo editorial do que no próprio conhecimento sobre os carros.

Jogo 2: estar na lista não garante a citação

Aqui está o dado mais desconfortável pra quem já investiu em SEO tradicional. Estar na busca que o próprio ChatGPT escreve aumenta em cerca de 33 vezes a chance de ser citado na resposta final, comparado a marcas que só foram encontradas durante a pesquisa, sem terem sido nomeadas de antemão. Mas isso é bilhete de entrada, não vitória garantida.

Suganthan analisou 3.554 páginas recuperadas em 57 conversas. Apenas 3,1% delas foram efetivamente citadas na resposta. O modelo lê centenas de páginas pra escrever uma resposta e credita só uma fração pequena. Três fatores concentram essa decisão:

  • Posição dentro do domínio: o ChatGPT agrupa os resultados por site e ordena por relevância dentro desse grupo. A primeira posição tem taxa de citação de 5,2%, a sexta posição em diante cai pra 0,3%.
  • Quantidade de páginas do mesmo domínio: ter duas páginas competindo pelo mesmo tema rende a melhor taxa de citação. Cinco páginas ou mais e o domínio passa a competir consigo mesmo, derrubando a taxa por página.
  • Relevância pro trecho específico: a página citada geralmente está entre as mais relevantes, mas raramente é a mais relevante de todas. Relevância qualifica, não decide sozinha.
Painel FanoutFox escuro com veredictos de pesquisa, uma lista de provedores de hospedagem como Kinsta e SiteGround, e consultas de hospedagem na web.
Ferramenta usada por Suganthan Mohanadasan pra capturar, em tempo real, as buscas que o ChatGPT gera internamente antes de acessar qualquer site.

Um detalhe que muda a leitura de qualquer teste: personalização

Vale um cuidado antes de sair testando isso sozinho. Suganthan percebeu que parte das marcas que apareceram nas buscas dele batiam com a própria localização (ele mora em Dubai), mesmo sem ele mencionar onde estava. Uma pergunta sobre seguro viagem, por exemplo, foi direto pra uma seguradora local dos Emirados. Ou seja, parte do que aparece na sua busca pode refletir o seu histórico de conta, não um conhecimento universal do modelo sobre a categoria.

Interface escura do FanoutFox, seção "Library", com projetos listados. O item "best web hosting" exibe a etiqueta "personalised" destacada em vermelho, indicando conteúdo do ChatGPT.
Aviso de personalização exibido pela ferramenta: sinaliza quando os resultados podem estar sendo moldados pelo histórico da conta usada na análise, não só pelo conhecimento geral do modelo.

Como testar isso na sua própria marca

Não precisa de ferramenta paga pra fazer o primeiro teste:

  • Abra o ChatGPT no navegador, ative o DevTools (F12) e vá na aba Network.
  • Pergunte “qual a melhor [sua categoria] em 2026”, sem citar nenhuma marca.
  • Procure pela requisição de “conversation” e dentro dela pela chave search_queries.
  • Veja se a sua marca aparece nessa primeira busca, antes de qualquer resultado ter sido consultado.

Repita a pergunta cinco vezes. Marca que aparece em todas as rodadas é concorrência real dentro do ChatGPT. Marca que aparece só às vezes está em disputa, e é aí que um empurrão editorial ainda pode mudar o resultado.

O que fazer com o resultado

Se sua marca nunca aparece nessa busca inicial, o problema não é a sua página, é a sua ausência do que Suganthan chama de vocabulário do modelo. O caminho passa por ganhar menção em publicações do seu setor, aparecer em comparativos e listas de terceiros, e construir presença editorial consistente, o tipo de trabalho que constrói associação de marca ao longo do tempo, não da noite pro dia.

Se sua marca já aparece na busca, o trabalho muda de natureza: uma página por intenção de busca, sem conteúdo duplicado competindo consigo mesmo, com a resposta certa logo no início, em texto simples, sem depender de imagem ou JavaScript pra mostrar preço ou dado numérico.

Perguntas frequentes

1. O ChatGPT realmente escolhe marcas antes de pesquisar na web? Sim. Segundo a análise de Suganthan Mohanadasan, o modelo escreve sua própria busca interna incluindo nomes de marca antes de consultar qualquer página, em 21 de 27 conversas testadas essa busca já continha marcas que o usuário nunca tinha citado.

2. Estar na busca interna do ChatGPT garante que minha marca vai ser citada? Não garante, mas aumenta muito a chance: marcas nomeadas nessa busca inicial foram citadas na resposta final cerca de 33 vezes mais do que marcas que só foram encontradas depois, sem terem sido nomeadas de antemão.

3. O que determina se uma página recuperada vira citação? Três fatores pesam mais: a posição da página dentro do grupo de resultados do mesmo domínio, quantas páginas daquele domínio competem no mesmo grupo (o ideal é duas) e a relevância do trecho pra afirmação específica que está sendo respondida.

4. Como saber se minha marca está no radar do ChatGPT? Pergunte ao ChatGPT “qual a melhor [sua categoria]” sem citar marcas, abra o DevTools do navegador, procure a requisição de conversa e veja se sua marca aparece na chave search_queries. Repita cinco vezes pra confirmar se é consistente.

5. O resultado desse teste é sempre igual pra todo mundo? Não necessariamente. A análise mostrou sinais de personalização: buscas podem trazer marcas ligadas à localização ou ao histórico da própria conta usada no teste, não só ao conhecimento geral do modelo sobre a categoria.

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