O vice-presidente de Busca do Google, Nick Fox, publicou nesta sexta-feira (17), no seu perfil do LinkedIn, uma frase que já virou assunto obrigatório em qualquer grupo de SEO: o Google segue mandando bilhões de cliques por dia para a web através da Busca como um todo, e agora diz que, somando só os recursos de IA (AI Overviews e AI Mode), já envia bilhões de cliques por semana.

À primeira vista, parece a resposta que o mercado esperava. Depois de meses ouvindo falar de zero-click e de quedas de tráfego, o Google finalmente diz “estamos mandando mais gente pro seu site, não menos”. Só que quem vive de conteúdo sabe: “bilhões” é uma palavra gigante e, sem contexto, quase inútil. Vamos entender o que Fox disse de fato, o que os dados independentes mostram e por que as duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

O que o Google disse, exatamente

No post original, Fox começa reconhecendo o temor mais óbvio do mercado: a ideia de que a IA tornaria a busca tradicional obsoleta, já que bastaria pedir a resposta pronta em vez de pesquisar. Ele diz que a equipe está vendo o oposto disso: quando as pessoas podem perguntar qualquer coisa que têm em mente, elas acabam usando o Google Search mais, não menos.

Depois ele ataca o segundo medo, que é justamente o que interessa pra quem produz conteúdo: será que ninguém mais clica pra fora do Google? Fox afirma que a empresa segue mandando “bilhões de cliques” por dia para a web através da Busca como um todo, e que os recursos de IA foram desenhados de propósito para conectar as pessoas a sites, não para substituí-los.

É a primeira vez que o Google associa publicamente uma cifra, ainda que vaga, aos cliques gerados especificamente pelas funcionalidades de IA. O problema é que “bilhões” não é uma métrica, é uma ordem de grandeza. Não sabemos se são 2 bilhões ou 9 bilhões, não sabemos qual a base de comparação, e o Google segue sem divulgar os dados brutos, mesmo depois de ter lançado os relatórios de desempenho de IA no Search Console. Sem o denominador (quantas buscas geram esses cliques), a informação funciona mais como reafirmação institucional do que como dado auditável.

Essa lacuna, aliás, não passou batida nos comentários da própria publicação de Fox no LinkedIn. Um dos comentários questiona diretamente a lógica do argumento: se a promessa de mais cliques é verdadeira, por que o Google não abre esses dados de IA no Search Console para os donos de site conferirem? O comentário ainda compara a postura do Google à do Bing, cujo Webmaster Tools já oferece mais informações sobre desempenho em buscas com IA, e sugere que a omissão é proposital. É exatamente o tipo de cobrança que qualquer profissional de conteúdo deveria estar fazendo: dado público e auditável vale mais do que declaração em rede social.

O que os estudos independentes mostram

Enquanto o Google fala em bilhões, três levantamentos recentes contam uma história mais desconfortável para quem produz conteúdo:

  • A SparkToro, usando dados de clickstream da Similarweb, mediu que 68% das buscas no Google nos EUA terminaram sem nenhum clique entre janeiro e abril de 2026. Em 2024, esse índice era de 60,45%. Quando o AI Overviews aparece (o que já acontece em mais de 20% das buscas, segundo o estudo), a taxa de cliques despenca quase 60%.
  • A Define Media Group, analisando dados de Search Console de uma carteira de 64 sites, apurou que o tráfego orgânico caiu 42% desde a expansão do AI Overviews, com a queda se intensificando a partir de maio de 2025. O mesmo relatório mostrou, por outro lado, que o tráfego vindo de notícias em tempo real cresceu 103% no período, puxado principalmente pelo Google Discover.
  • Um estudo publicado em 2024 já apontava 58,5% de buscas sem clique nos EUA, o que mostra que a tendência de “resposta direta na tela” não nasceu com o AI Overviews. Ela só acelerou depois dele.

Por que os dois lados podem estar certos

Não é contradição, é escala. O total de buscas feitas no Google por dia é astronômico, algo na casa das dezenas de bilhões. Então é matematicamente possível que o Google envie bilhões de cliques todo dia e, ao mesmo tempo, a proporção de buscas que terminam sem clique continue subindo. Um número absoluto grande convive perfeitamente bem com uma fatia relativa cada vez menor.

Há ainda outro ponto que Fox não menciona: o mix de conteúdo mudou. Notícias e conteúdo factual em tempo real (onde a IA aparece menos, porque o risco de erro é maior) seguem gerando cliques fortes. Já o conteúdo evergreen, do tipo “o que é X” ou “como fazer Y”, é justamente onde o AI Overviews resolve a dúvida sem precisar te mandar pra fora do Google. É esse segundo grupo que está sentindo a queda na pele, mesmo que o total geral continue em bilhões.

O que isso muda na prática

Para quem produz conteúdo, a notícia do Google não anula os estudos, ela só adiciona uma peça ao quebra-cabeça. Vale reter três coisas:

  • Conteúdo informacional e evergreen tende a perder cliques diretos, porque é justamente o tipo de pergunta que o AI Overviews resolve sozinho na tela.
  • Conteúdo factual, notícia e cobertura em tempo real seguem performando bem, porque o Google evita gerar resumos de IA quando a precisão é crítica.
  • A ausência de dados granulares do próprio Google significa que qualquer estratégia baseada só em “confiar no que a empresa diz” é uma estratégia incompleta. O caminho seguro continua sendo medir o próprio site, cruzando dados de Search Console com os relatórios de IA que o Google já disponibiliza.

Enquanto o Google não abre a régua completa, o discurso de que está mandando mais cliques funciona bem como resposta institucional, mas não substitui a leitura dos seus próprios números.

Perguntas frequentes

1. O Google confirmou quantos cliques exatamente ele manda pelas buscas com IA? Não. Nick Fox falou em “bilhões” por semana, mas o Google não divulgou o número exato nem a base de comparação, então não dá para calcular uma taxa real a partir dessa declaração.

2. Isso significa que o AI Overviews não está reduzindo o tráfego dos sites? Não necessariamente. Estudos como o da SparkToro e o da Define Media Group mostram queda real na taxa de cliques quando o AI Overviews aparece, mesmo que o volume absoluto de cliques do Google como um todo continue alto.

3. Por que o número de buscas sem clique (zero-click) está subindo? Porque o Google está respondendo mais perguntas diretamente na tela de resultados, seja via AI Overviews, seja via outros formatos de resposta direta. Isso reduz a necessidade de o usuário visitar um site externo.

4. Que tipo de conteúdo está mais protegido dessa mudança? Notícias e conteúdo factual em tempo real, que costumam aparecer no carrossel de Principais Notícias em vez do AI Overviews, já que o risco de erro em temas urgentes é mais sensível para o Google.

5. O que dá pra fazer com essas informações agora? Acompanhar os relatórios de desempenho de IA do próprio Search Console, em vez de depender só de declarações públicas do Google, e revisar a estratégia de conteúdo evergreen, que é a categoria mais exposta à perda de cliques diretos.

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