Durante quase dois anos, uma pergunta que circulou de forma enfática nos bastidores do mercado de Tecnologia e Publicidade Digital foi uma só: a IA vai destruir o negócio do Google? Os resultados do segundo trimestre de 2026, divulgados em 22 de julho pela Alphabet, oferecem a resposta mais contundente para esta pergunta até agora. E ela surpreendeu boa parte dos analistas.
Números que contam uma história
A receita total da Alphabet no Q2 2026 foi de US$ 119,8 bilhões, representando uma alta de 24% em relação ao mesmo período de 2025, e superando a expectativa de US$ 116,93 bilhões projetada pelo mercado. É o 12º trimestre consecutivo de crescimento de dois dígitos.
Dentro desse resultado, os destaques são:
- Google Search e outras receitas: US$ 63,3 bilhões: alta de 17% em relação ao ano anterior
- YouTube Ads: US$ 11,1 bilhões: crescimento de 13%
- Google Cloud: US$ 24,8 bilhões: alta de 82%, com carteira de pedidos atingindo US$ 514 bilhões
- Receita operacional consolidada: US$ 40,8 bilhões: margem de 34%, dois pontos acima do trimestre equivalente de 2025.
O lucro líquido chegou a US$ 112,1 bilhões, número inflado por US$ 99 bilhões em ganhos com ativos de capital, incluindo participação da Alphabet no IPO da SpaceX. Isolando esse efeito, o crescimento operacional de 30% é o dado mais relevante para quem quer entender a saúde do negócio principal da empresa.
A tese da canibalização levou um golpe
Por meses, analistas e especialistas em SEO debateram se os AI Overviews e o AI Mode estariam canibalizando as receitas de busca do Google. A lógica era simples: se a IA responde diretamente na página de resultados, o usuário não clica em links patrocinados, o anunciante paga menos e a receita cai.
Os resultados do Q2 2026 colocam essa tese em xeque, pelo menos por ora.
No earnings call, Sundar Pichai foi direto: “Nossas funcionalidades de IA estão impulsionando o uso da busca. Desde a expansão global do AI Mode no ano passado, superamos 1 bilhão de usuários ativos mensais. E, assim como os AI Overviews, o AI Mode está gerando um aumento incremental no volume total de buscas. Estamos enviando bilhões de cliques para sites toda semana por meio das funcionalidades de IA na busca.”
Em números: os AI Overviews já superam 2,5 bilhões de usuários ativos mensais. O AI Mode ultrapassou 1 bilhão, tornando-se uma das superfícies de busca de crescimento mais rápido na história da empresa, com queries mais que dobrando a cada trimestre desde o lançamento. Em maio de 2026, no Google I/O, a empresa unificou as duas experiências numa única interface, combinando a resposta rápida dos AI Overviews com a conversa aprofundada do AI Mode.
Uma ressalva importante, e que o próprio Pichai não fez questão de levantar: essa é a leitura do Google sobre os próprios números. A empresa tem todo o incentivo para enquadrar a IA como vento a favor. Analistas independentes ainda não têm dados suficientes para confirmar ou refutar a atribuição com precisão.
O que os números não mostram
O crescimento de 17% na busca é real. Mas há duas tensões que merecem atenção.
A primeira é a desaceleração. Segundo especialistas que acompanharam os resultados de perto, esta foi a primeira queda no ritmo de crescimento em seis trimestres consecutivos. A CFO Anat Ashkenazi já alertou para uma base de comparação mais difícil no Q3 2026, o que significa que o próximo resultado pode parecer uma desaceleração mesmo que o negócio continue saudável.
A segunda é a divisão entre crescimento de receita do Google e impacto sobre editores. O Pew Research Center analisou mais de 68 mil buscas reais e constatou que apenas 8% dos usuários clicam em resultados orgânicos quando há um AI Overview visível, contra 15% quando ele não aparece. Outros estudos apontam queda de 58% na taxa de cliques para publishers. Ou seja, a receita do Google pode crescer enquanto o tráfego que ele envia para outros sites diminui. Crescimento e redistribuição acontecem ao mesmo tempo, mas não para os mesmos atores.
A rede de publicidade do Google (AdSense, AdMob) registrou queda de 1% em termos anuais, o único segmento em declínio. É um sinal de que a transição do modelo publicitário tradicional para formatos integrados à IA está em curso, mesmo que ainda não comprometa os números agregados.
O Google Cloud como o novo motor de crescimento
O número que mais chamou atenção no Q2 2026 não foi o da busca. Foi o do Cloud.
Com alta de 82% e US$ 24,8 bilhões em receita, o Google Cloud registrou seu crescimento mais acelerado em anos, impulsionado pela demanda por infraestrutura de IA e soluções empresariais baseadas nos modelos Gemini. Quase 90% das empresas da Fortune 100 já usam o Gemini Enterprise. A carteira de pedidos do Cloud atingiu US$ 514 bilhões, crescendo mais de US$ 50 bilhões em relação ao trimestre anterior.
Para sustentar esse crescimento, a Alphabet investiu US$ 44,9 bilhões em infraestrutura no trimestre, sendo 60% em servidores e 40% em data centers e equipamentos de rede. Apesar disso, a CFO sinalizou que a demanda ainda supera a capacidade instalada: “Nossa receita de Cloud seria ainda maior se conseguíssemos atender toda a demanda.” O fluxo de caixa livre foi negativo em US$ 5,9 bilhões no período, reflexo direto do ritmo de investimento.
No mesmo trimestre, os modelos Gemini processaram 22 bilhões de tokens de API por minuto, e o Gemini App atingiu 950 milhões de usuários ativos mensais.
O que impulsionou a busca além da IA
Há um fator que os analistas raramente mencionam nos resultados do Q2 2026: a Copa do Mundo de 2026.
O torneio, realizado nos Estados Unidos, gerou um volume histórico de buscas no Google. O próprio Pichai sinalizou isso no earnings call: “Como grande fã de futebol, fiquei especialmente animado ao ver o uso da busca atingir o maior nível de todos os tempos durante a Copa do Mundo deste ano. Isso realmente destaca o quanto as pessoas recorrem ao Google em momentos que importam.” O YouTube registrou 1,7 bilhão de espectadores únicos globais para conteúdos relacionados ao torneio.
Esse pico sazonal é relevante para contextualizar o crescimento. Parte do 17% reflete demanda estrutural da IA. Outra parte reflete um evento de alcance global que elevou o volume de buscas num único trimestre.
O que fica de lição para quem trabalha com SEO e conteúdo
Os resultados do Q2 2026 não resolvem o debate sobre o impacto da IA na busca. Eles adicionam uma camada importante de evidência, mas não encerram a conversa.
O que os números confirmam é que o Google conseguiu, até agora, absorver a disrupção da IA dentro do próprio produto, integrando AI Overviews e AI Mode à experiência de busca em vez de deixar que concorrentes como ChatGPT e Perplexity capturassem esse comportamento do usuário. A estratégia funcionou no Q2. Se vai continuar funcionando à medida que esses concorrentes ganham escala é outra questão.
Para quem produz conteúdo e depende de tráfego orgânico, a mensagem é mais ambígua. O Google cresce. Os cliques para sites podem não crescer no mesmo ritmo. E a diferença entre essas duas curvas é exatamente onde o debate sobre o futuro da busca vai continuar acontecendo.
E uma conclusão à qual chegamos aqui no blog é a de que os números do Google confirmam o que já dizemos há algum tempo: visibilidade na era da IA não é mais sinônimo de clique. É presença, citação, autoridade e reconhecimento, dentro e fora dos resultados tradicionais de busca. Quem entende essa distinção já está construindo a estratégia certa.
Perguntas frequentes sobre os resultados do Google no Q2 2026
1. O crescimento de 17% na busca significa que a IA não está prejudicando o Google?
Não necessariamente. O crescimento de receita do Google e o impacto da IA sobre o tráfego enviado a outros sites são fenômenos diferentes. O Google pode crescer enquanto o volume de cliques para publishers diminui, porque AI Overviews e AI Mode aumentam o volume de buscas e permitem monetização direta na página de resultados. Os dados do Pew Research Center mostram que usuários clicam em resultados orgânicos em apenas 8% das visitas com AI Overview visível, contra 15% sem ele. Crescimento do Google e crescimento do tráfego para sites de terceiros não são a mesma coisa.
2. O que foi o resultado mais surpreendente do Q2 2026 da Alphabet?
O crescimento de 82% do Google Cloud, que atingiu US$ 24,8 bilhões em receita, foi o número que mais chamou atenção do mercado. A carteira de pedidos chegou a US$ 514 bilhões, com quase 90% das empresas da Fortune 100 usando o Gemini Enterprise. Esse resultado posiciona o Cloud como o principal motor de crescimento futuro da Alphabet, superando em ritmo a própria busca.
3. Por que o lucro líquido da Alphabet chegou a US$ 112 bilhões se a receita foi de US$ 119 bilhões?
O número de lucro líquido foi inflado por US$ 99 bilhões em ganhos com ativos de capital, incluindo a valorização da participação da Alphabet no IPO da SpaceX. Esse é um efeito contábil pontual, não operacional. O dado mais representativo da saúde do negócio principal é o crescimento operacional de 30%, com margem de 34%.
4. O AI Mode e os AI Overviews estão de fato aumentando o volume de buscas?
É o que o Google afirma, e os números do Q2 2026 são consistentes com essa narrativa. Sundar Pichai declarou que o AI Mode está gerando aumento incremental no volume total de buscas e que a empresa envia bilhões de cliques para sites por semana via funcionalidades de IA. No entanto, analistas independentes não têm acesso a dados desagregados para confirmar a atribuição com precisão. O Google não divulga separadamente os cliques gerados por AI Mode ou AI Overviews no Search Console.
5. O que esses resultados significam para estratégias de SEO e GEO em 2026?
Que a visibilidade na busca deixou de ser medida apenas por posição no ranking ou volume de cliques. Com AI Overviews respondendo diretamente na SERP e AI Mode gerando conversas sem necessariamente redirecionar para links externos, a métrica relevante passa a ser citação, presença como fonte confiável e reconhecimento de entidade pelos modelos de IA. Estratégias de GEO, que otimizam conteúdo para ser citado por sistemas de IA generativa, tornam-se cada vez mais complementares ao SEO tradicional nesse cenário.



