Sites de notícias e grupos de mídia ao redor do mundo estão perdendo tráfego orgânico de forma acelerada, e a principal responsável por isso é a expansão das atividades de busca online com inteligência artificial. Não se trata de uma crise passageira. É uma mudança estrutural no jeito como as pessoas chegam à informação, e tudo isso está acontecendo agora.
Um caso emblemático para ilustrar esse fenômeno vem do Reino Unido. A DMG Media, que opera o MailOnline e o Metro, registrou queda de nada menos que 89% na taxa de cliques em buscas específicas quando os AI Overviews do Google apareceram nos resultados. Os dados são oficiais, declarados pela própria empresa à Autoridade de Concorrência e Mercados britânica. Na versão desktop, o CTR do Daily Mail despencou de 25% para menos de 3% quando o resumo de IA ocupou o topo da página.
Esse número representa um cenário extremo, não a média geral. Mas ele deixa bem claro até onde a perda pode chegar.
A extensão do problema
A marca de 89% do MailOnline é extrema, mas a tendência se repete em toda a indústria, com variações por vertical, tipo de conteúdo e mercado.
Dados do Chartbeat apontam queda de 33% no tráfego vindo do Google para mais de 2.500 sites de notícias entre novembro de 2024 e novembro de 2025, chegando a 38% nos Estados Unidos. O Reuters Institute projeta que, até 2029, os portais de notícias podem perder até 43% do tráfego de busca.
Entre os casos mais documentados:
- Digital Trends: queda de 97% em relação ao pico histórico;
- ZDNet: 90% de redução;
- The Verge: 85% a menos;
- HuffPost: metade dos acessos por busca desapareceu;
- Business Insider: 55% de queda entre 2022 e 2025, o que levou ao corte de 21% do quadro de funcionários;
- The New York Times: a participação da busca orgânica no tráfego total caiu de 44% para 37% entre 2022 e 2025.
Vale destacar que parte dessas quedas reflete comparações entre o pico histórico de cada publicação e os números atuais, sem levar em conta variações sazonais. Mas ninguém questiona a direção da curva.
Por que isso está acontecendo
O AI Overview e a busca sem clique
Quando o Google exibe um resumo gerado por IA no topo da página, o usuário muitas vezes encontra a resposta que precisava sem precisar clicar em nenhum link. Esse comportamento já existia com os snippets e os painéis de conhecimento, mas a IA acelerou drasticamente o fenômeno.
Um estudo com 21,9 milhões de buscas mostrou que 25% das pesquisas no Google geraram um AI Overview no primeiro trimestre de 2026; A Seer Interactive registrou queda de 61% na taxa de cliques quando um resumo de IA aparece nos resultados. E o Pew Research Center constatou que apenas 8% dos usuários clicam em resultados orgânicos quando há um AI Overview visível, contra 15% quando ele não aparece.
Para conteúdos de utilidade, como previsão do tempo, guias de TV e horóscopo, o impacto é ainda maior. por enquanto, textos jornalísticos de última hora têm resistido melhor, mas não estão imunes.
O efeito no modelo de negócios
A queda de tráfego não é apenas um problema de audiência. Para portais que dependem de pageviews para vender publicidade, a equação muda por completo: menos leitores, menos impressões de anúncios, menos Conversões são as ações valiosas que o visitante realiza no site depois de chegar por busca orgânica, mostrando que o tráfego gerou resultado real para o negócio. de assinaturas. Como resumiu Jason Kint, da Digital Content Next, esse cenário significa exatamente isso.
O modelo de negócios da mídia digital foi construído em cima do tráfego orgânico como principal canal de distribuição. Quando esse canal encolhe, as consequências chegam rápido: cortes editoriais, fechamento de veículos menores e uma concentração ainda maior de audiência nas grandes plataformas.
O que os grupos de mídia estão fazendo
A indústria está respondendo de várias formas, e nenhuma delas é nova, mas todas estão adquirindo mais urgência:
- Newsletters e canais diretos: distribuição que não depende de algoritmo, com audiência menor mas mais engajada;
- Modelos de assinatura e paywall: aposta em receita recorrente para compensar a queda na publicidade;
- Eventos e experiências: criação de espaços que a IA não consegue replicar;
- Processos judiciais: The New York Times e outros veículos entraram com ações contra empresas de IA por uso não autorizado de conteúdo;
- Acordos de licenciamento: negociações para que plataformas de IA paguem pelo acesso ao conteúdo jornalístico.
No Brasil, o Reuters Institute Digital News Report 2026 aponta que o País já começa a desenvolver acordos comerciais envolvendo licenciamento de conteúdo jornalístico para empresas de IA, e destaca que 13% dos brasileiros já usam chatbots de IA semanalmente para se informar, uma das maiores taxas entre todos os países pesquisados.
O que fica de lição para quem produz conteúdo
A queda de tráfego é real, mas não é o fim da história. O que os dados de 2026 mostram é uma redistribuição, não um colapso total. Enquanto o volume de cliques cai, o tráfego vindo de mecanismos de IA converte melhor: visitantes que chegam por uma citação num AI Overview já chegam mais informados e mais próximos de uma decisão.
Isso muda o que vale medir. Quem mede sucesso só por sessões vai ler os dados de 2026 como catástrofe. Quem mede por Conversões são as ações valiosas que o visitante realiza no site depois de chegar por busca orgânica, mostrando que o tráfego gerou resultado real para o negócio. e valor do visitante vai ler o mesmo período como uma reconfiguração, com audiência menor e mais qualificada.
O conteúdo que resiste é o que a IA não consegue substituir: dado original, perspectiva de primeira mão, investigação própria, voz editorial com identidade. Resumos do que já está na internet não têm mais lugar, nem para o leitor, nem para o algoritmo. Vale, mais uma vez, bater na tecla que sempre apertamos aqui: o componente humano pode mudar tudo.
Para a mídia, a pergunta já não é “como atrair mais cliques?”, mas “como construir uma relação direta com a audiência que não dependa de intermediários?”. E essa pergunta, curiosamente, é mais jornalística do que tecnológica.
Perguntas frequentes sobre a queda de tráfego da mídia para a IA
1. A queda de 89% citada no post vale para todos os portais de notícias?
Não. O número de 89% representa um caso extremo registrado pelo MailOnline em buscas específicas quando o AI Overview do Google apareceu nos resultados. A queda média documentada pelo Chartbeat para mais de 2.500 portais foi de 33% globalmente entre 2024 e 2025, um número já significativo, mas bem diferente do pior cenário.
2. Por que o AI Overview reduz tanto os cliques nos sites de notícias?
Porque ele entrega a resposta diretamente na página de resultados do Google, eliminando a necessidade de o usuário clicar em qualquer link. Para conteúdos informativos e de utilidade, onde a pergunta tem uma resposta objetiva, o efeito é ainda mais intenso. O leitor encontra o que precisa sem sair do buscador.
3. O tráfego de IA compensa o que se perde em busca orgânica tradicional?
Em volume, não. Em qualidade, há evidências de que sim: visitantes que chegam por citações em ferramentas de IA tendem a converter melhor do que os visitantes de busca orgânica convencional. Mas esse tráfego ainda é pequeno perto do que os portais perderam, e a compensação só funciona para quem tem conteúdo que as IAs citam, ou seja, material original, com autoridade e profundidade.
4. Sites brasileiros também estão sendo afetados?
Sim, embora os dados detalhados por mercado sejam menos documentados do que os dos EUA e do Reino Unido. O Reuters Institute aponta que o Brasil é um dos países que mais rapidamente está incorporando IA ao consumo de notícias, o que acelera o mesmo fenômeno observado nos mercados mais maduros.
5. O que um portal de notícias pode fazer agora para se adaptar?
A resposta mais sustentável passa por diversificar os canais de distribuição, apostando em newsletters, podcasts, eventos e comunidades que criem uma relação direta com a audiência sem depender do tráfego de busca. Em paralelo, investir em conteúdo que a IA não consegue replicar, como jornalismo investigativo, dados exclusivos e perspectivas autorais, é o caminho para continuar relevante tanto para leitores quanto para ser citado pelos próprios sistemas de IA.



